Introdução
Entre os
temas mais distorcidos nas redes sociais está o do “batismo com fogo”
mencionado por João Batista. Alguns pregadores modernos, como visto em certos
vídeos populares, afirmam que esse fogo representa apenas o juízo eterno,
e não algo bom. Essa leitura, contudo, fere o contexto bíblico, ignora o
Antigo Testamento e contradiz a própria experiência do Pentecostes.
A verdade
é que o fogo, na Bíblia, pode significar tanto purificação quan
to juízo,
dependendo do destinatário. O mesmo Deus que consome o ímpio também refina o
justo.
1. O texto em questão
Mateus
3.11 / Lucas 3.16:
“Ele vos
batizará com o Espírito Santo e com fogo.”
João
Batista falava do Messias e o contrastava com seu próprio batismo em água. O
dele era simbólico; o do Messias seria espiritual e transformador.
Logo após
essa declaração, João menciona o juízo vindouro (v.12), mas isso não anula o
fato de que o “batismo com fogo” é prometido aos que receberiam o Espírito
Santo.
2. O simbolismo do fogo na Bíblia
O fogo
nas Escrituras tem dois sentidos principais:
A) Fogo
purificador
- Malaquias 3.2–3: “Como fogo do ourives...
purificará os filhos de Levi.”
- Zacarias 13.9: “Porei esta terceira parte
no fogo, e a purificarei.”
- Isaías 4.4: “O Senhor lavará a imundícia...
com o espírito de juízo e o espírito de ardor.”
Esses
textos mostram que o Espírito Santo atua como fogo que queima as impurezas
espirituais, refinando o caráter do povo de Deus.
B) Fogo destruidor (juízo)
- Mateus 3.12: o mesmo contexto de João fala
da “palha queimada no fogo que nunca se apaga”.
- Aqui o fogo é punição dos
impenitentes, não do povo que recebeu o Espírito.
Portanto,
há dois grupos e duas ações: os salvos são purificados; os ímpios,
consumidos. O erro do vídeo em questão está em confundir os alvos dessas
duas operações.
3. A prova do Pentecostes
Atos
2.3–4:
“E
apareceram distribuídas entre eles línguas como de fogo... e todos foram cheios
do Espírito Santo.”
No
Pentecostes, o “fogo” não simboliza condenação, mas capacitação e
santificação. A promessa de João Batista se cumpriu exatamente ali: batismo
com o Espírito Santo e com fogo.
Se o fogo fosse “perdição”, então os 120 do cenáculo teriam sido condenados naquele momento — um absurdo teológico. O texto mostra que o fogo representa a presença divina que transforma, consome o pecado e inflama a alma para o serviço de Deus.
4. A opinião deTeólogos Pentecostais
Pentecostais
clássicos sempre viram no “fogo” o símbolo da presença ativa e purificadora
do Espírito.
Myer
Pearlman
(Assemblies of God):
“O batismo com fogo indica a operação do Espírito que purifica e inflama o
crente para o testemunho.”
(Conhecendo as Doutrinas da Bíblia, p. 177)
Donald
Gee, teólogo
pentecostal britânico:
“O fogo é a energia santificadora e penetrante do Espírito Santo, produzindo
zelo e pureza.”
(O Espírito Santo e Seus Dons, p. 43)
Antônio
Gilberto (CPAD):
“Fogo não é juízo sobre o crente, mas purificação e poder espiritual.”
(Teologia Sistemática Pentecostal, p. 412)
5. A opinião de Teólogos não pentecostais
Vários teólogos e comentaristas não pentecostais (inclusive
reformados, anglicanos e evangélicos clássicos) afirmam que o “fogo” de Mateus
3.11 não se refere exclusivamente ao juízo, mas também (ou principalmente) à
purificação e ao poder do Espírito Santo.
R. T. France (Anglicano / erudito da
Universidade de Oxford)
Obra: The
Gospel of Matthew (NICNT), Grand Rapids: Eerdmans, 2007.
“In this context, the coupling of Spirit and fire points not to two separate baptisms
but one combined experience of cleansing and empowerment.
It is the eschatological work of the Messiah in the people of God.”
(‘Neste contexto, a junção de
Espírito e fogo não aponta para dois batismos separados, mas para uma
experiência combinada de purificação e capacitação. É a obra escatológica do
Messias no povo de Deus.’)
Leon Morris (Anglicano reformado)
Obra: The Gospel According to Matthew (Pillar New
Testament Commentary, 1992)
“The parallelism of ‘Spirit and fire’ suggests that both
belong to the one work of the Messiah;
fire here carries the connotation of refining rather than destroying.”
(‘O paralelismo de “Espírito e fogo” sugere que
ambos pertencem à mesma obra do Messias; o fogo aqui carrega a conotação de
refinar, não de destruir.’)
William Hendriksen (Reformado / Calvinista clássico)
Obra: Exposition of the
Gospel According to Matthew, Baker, 1973.
“It is best to regard ‘Spirit and fire’ as a hendiadys,
indicating one and the same baptism,
a baptism in which the purifying Spirit is likened to fire.”
(‘É melhor entender “Espírito e fogo” como uma
hendiadís, indicando um mesmo batismo,em que o Espírito purificador é comparado
ao fogo.’)
D. A. Carson (Batista reformado)
Obra: Matthew (The
Expositor’s Bible Commentary), Zondervan, 1984.
“The combination ‘Spirit and fire’ probably refers to the same
cleansing activity.
The Messiah will baptize with the Holy Spirit who, like fire, purifies and
refines.”
(‘A combinação “Espírito e fogo” provavelmente
se refere à mesma atividade purificadora.
O Messias batizará com o
Espírito Santo que, como o fogo, purifica e refina.’)
John Stott (Anglicano evangélico)
Obra: Baptism and
Fullness: The Work of the Holy Spirit Today (1975)
“The fire is not the fire of destruction but of
purification.
The Holy Spirit’s coming was accompanied by tongues of fire at Pentecost as a
visible symbol of this purifying and empowering ministry.”
(‘O fogo não é o da destruição, mas o da
purificação.
O Espírito Santo veio
acompanhado de línguas de fogo no Pentecostes como símbolo visível dessa obra
purificadora e capacitadora.’)
Portanto, a ideia de que o “fogo” em Mateus 3.11 é exclusivamente fogo de juízo é minoritária e frágil, sustentada apenas por quem ignora o paralelismo entre o Espírito e o fogo e o cumprimento em Atos 2.
Entre teólogos
pentecostais e não pentecostais, a leitura dominante é a seguinte:
O fogo representa a ação purificadora e
capacitadora do Espírito sobre os crentes, o mesmo fogo que julgará os ímpios
purifica os fiéis.
6. Exegese equilibrada do texto
A
estrutura de Mateus 3.11–12 revela um paralelismo progressivo:
|
Verso |
Grupo Alvo |
Ação Divina | Resultado |
|
v.11 |
Crentes |
Batismo com Espírito e fogo |
Purificação e poder |
|
v.12 |
Ímpios |
Queima da palha |
Juízo eterno |
Conclusão
O vídeo
que afirma que o “batismo com fogo é assustador” ignora o contexto e subverte
a mensagem pentecostal. O fogo é assustador para quem resiste ao
Espírito, mas glorioso para quem o recebe.
O crente
cheio do Espírito experimenta esse fogo como purificação, santificação,
paixão por Cristo e poder para testemunhar. O mesmo fogo que consome o
pecado é o que brilha na alma regenerada.
Portanto,
o batismo com fogo é o selo do Espírito Santo sobre o crente, não sua
condenação.
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