sábado, 3 de janeiro de 2026

“Mateus 28.19 Antes de Niceia: a fórmula batismal que o unicismo não consegue apagar”


Por  Pr. Anderson de Paula

Uma das táticas mais recorrentes das seitas unicistas é tentar desacreditar textos bíblicos como Mateus 28.19 e Lucas 3.21–22, que apresentam de forma clara a doutrina da Trindade. A razão é evidente: se esses textos forem aceitos em sua leitura natural, todo o sistema doutrinário unicista entra em colapso. A respeito de Lucas 3.21–22, tratarei em outro artigo. Neste texto, porém, o foco recairá sobre o argumento unicista segundo o qual Mateus 28.19 não constaria nos escritos originais e teria sido supostamente inserido na Bíblia durante o Concílio de Niceia, em 325 d.C.

Antes de analisar esse argumento, contudo, é necessário destacar a importância da doutrina da Trindade, uma vez que ela envolve diretamente uma questão de salvação. A relevância desse tema é tamanha que ele foi novamente incluído no conteúdo deste trimestre da Escola Bíblica Dominical (EBD). Por essa razão, iniciarei este estudo abordando a importância da doutrina trinitária, ao mesmo tempo em que defendo a acertada decisão da diretoria responsável pela elaboração das revistas em trazer, mais uma vez, esse assunto fundamental à igreja.

Introdução: a importância da doutrina e a acertada decisão das Assembleias de Deus

Para nós, pentecostais assembleianos, a revista da Escola Bíblica Dominical (EBD) apresenta uma série de estudos sob o tema A Santíssima Trindade: o Deus único revelado em três pessoas”. Não é a primeira vez que a diretoria responsável pela elaboração das revistas decide abordar esse conteúdo. Alguns irmãos chegam a questionar a repetição de lições sobre a Trindade, mas essa recorrência se justifica pelo fato de que precisamos estar constantemente atentos a uma doutrina central e inegociável da fé cristã.

A doutrina da Trindade não é um ponto secundário, nem uma questão sobre a qual possamos divergir livremente. Trata-se de uma doutrina que diz respeito diretamente à adoração e à obediência ao Deus verdadeiro, revelado nas Escrituras como “o único Senhor” (Dt 6.4). Contudo, a própria revelação bíblica nos ensina que esse único Senhor existe eternamente em três pessoas distintas.

Textos como Lucas 3.21–22 demonstram de maneira claríssima a atuação simultânea das três pessoas da Trindade: o Filho é batizado, o Espírito Santo desce sobre Ele e o Pai manifesta sua voz do céu. Além disso, o próprio Cristo, em Mateus 28.19, apresenta explicitamente a Trindade na fórmula batismal, ao ordenar que os discípulos batizem “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.

A Bíblia também revela que cada pessoa da Trindade possui os mesmos atributos divinos, sendo plenamente Deus. Como se observa na tabela abaixo, tanto Jesus quanto o Espírito Santo compartilham dos mesmos atributos do Deus Pai.

Essa realidade nos conduz à conclusão bíblica e histórica de que Deus é um só em essência e subsiste eternamente em três pessoas distintas. Portanto, para nós, cristãos, negar o Deus triúno é negar o verdadeiro Deus revelado nas Escrituras. Diante disso, fica claro que essa doutrina é central à fé cristã. Assim, crer em um deus que não é trino é, na prática, não crer no Deus verdadeiro e único que pode salvar.

Trata-se, portanto, de uma questão de salvação ou perdição, pois ninguém pode alcançar a vida eterna sem conhecer o Deus verdadeiro, e esse Deus verdadeiro se revelou nas Escrituras tal como Ele é. Por essa razão, a diretoria das Assembleias de Deus acertou plenamente ao trazer, mais uma vez, esse estudo tão necessário. Há grupos, como os unicistas, que precisam ouvir o verdadeiro evangelho, e cabe a nós anunciar a verdade para que abandonem erros doutrinários e se voltem ao Deus vivo e verdadeiro.

Tendo demonstrado a importância dessa doutrina, voltaremos agora nossa atenção a um dos argumentos mais utilizados pelos unicistas na tentativa de deturpar a verdade clara e objetiva de Mateus 28.19.

1. Por que os unicistas afirmam que Mateus 28.19 foi inserido na Bíblia?

Os unicistas sustentam que a forma trinitária do batismo apresentada em Mateus 28.19 não constaria nos escritos originais. Essa alegação se apoia, basicamente, em dois argumentos principais:

a) O fator bíblico

Segundo os unicistas, a fórmula trinitária entraria em choque com o relato do livro de Atos dos Apóstolos, pois, ao longo desse livro, o batismo é descrito como sendo realizado “em nome de Jesus” (cf. At 2.38; 8.16; 10.48). A partir disso, argumentam que, se Jesus tivesse de fato ordenado um batismo trinitário, seria estranho que os apóstolos não tivessem seguido essa instrução de forma explícita.

b) O fator histórico

Os unicistas também recorrem a Eusébio de Cesareia, historiador cristão do século IV, afirmando que ele cita Mateus 28.19 diversas vezes em obras anteriores ao Concílio de Niceia (325 d.C.), mas sem empregar a fórmula trinitária. Em algumas dessas citações, Eusébio apresenta o texto da seguinte forma:

“Ide e fazei discípulos de todas as nações, em meu nome.”

Nessas citações, ele omite a expressão “do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.

Esses dois pontos constituem a base do argumento unicista para negar a fórmula batismal trinitária. Em resumo, concluem que a fórmula de Mateus 28.19 teria sido acrescentada posteriormente, pois, segundo sua leitura, caso fosse original, os apóstolos a teriam utilizado explicitamente no livro de Atos, e Eusébio de Cesareia não a teria omitido em seus escritos. À primeira vista, o argumento parece forte, mas, na realidade, não se sustenta. Tendo apresentado a posição unicista, passaremos agora à refutação, começando pelo argumento bíblico e, em seguida, pelo histórico.

2. O fator bíblico: o livro de Atos contradiz a fórmula trinitária de Mateus 28.19?

Agora que apresentamos a base da argumentação unicista contra a fórmula trinitária de Mateus 28.19, é necessário examinar se existe, de fato, alguma contradição entre essa fórmula e a maneira como os apóstolos realizavam os batismos. Esse ponto é crucial, pois, se os unicistas conseguissem demonstrar tal contradição, a fórmula trinitária poderia ser questionada, o que implicaria sérios problemas para a coerência da narrativa bíblica.

Quando o livro de Atos afirma que os discípulos batizavam “em nome de Jesus”, não está introduzindo uma nova fórmula batismal, mas indicando que o batismo era realizado sob a autoridade do nome de Jesus. Um exemplo claro encontra-se em Atos 2.38:

“E disse-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo.”

Nesse contexto, Pedro não estava negando a fórmula trinitária, mas aplicando o ensino do próprio Cristo. Sua ênfase recai sobre a autoridade sob a qual o batismo é administrado, isto é, o nome de Jesus, o Messias exaltado. Conforme observa o gramático A. T. Robertson, “a expressão ἐπὶ τῷ ὀνόματι em Atos 2.38 indica autoridade, e não uma fórmula litúrgica”.

Essa compreensão é compartilhada por diversos estudiosos do grego do Novo Testamento, como Daniel B. Wallace, James D. G. Dunn e C. K. Barrett, entre outros. Todos reconhecem que o batismo “em nome de Jesus”, mencionado em Atos, não se refere à recitação de uma fórmula específica, mas à autoridade e ao modo de batizar ensinados pelo próprio Jesus.

Além disso, a tradução literal de Atos 2.38 é “seja batizado sobre o nome de Jesus Cristo”. Segundo o Léxico de Thayer, isso significa que os judeus deveriam “repousar sua esperança e confiança na autoridade messiânica de Cristo”. Assim, fica claro que não existe contradição entre Mateus 28.19 e o livro de Atos: Jesus ensinou a fórmula, e os discípulos batizaram de acordo com essa fórmula, sob a autoridade do nome de Jesus.

3. Fator bíblico: Mateus 28.19 usa “em nome” e não “nos nomes”. Isso depõe contra a fórmula trinitária?

Alguns grupos unicistas argumentam que Mateus 28.19 utiliza a expressão “em nome”, no singular, e não “nos nomes”, no plural. Segundo eles, isso indicaria apenas uma pessoa, e não três, como afirma a doutrina da Santíssima Trindade. Com base nisso, concluem que não se trata de três pessoas distintas, mas de uma única pessoa que se manifesta de formas diferentes; por essa razão, defendem que o batismo deve ser realizado exclusivamente no nome de Jesus.

Esse argumento é amplamente utilizado pelos unicistas, mas é extremamente frágil. O uso do termo “nome” no singular não indica uma única pessoa, mas unidade de autoridade, essência e identidade compartilhada. Caso o raciocínio unicista fosse correto, o texto de Êxodo 3.6 se tornaria problemático:

“Eu sou o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó.”

Aqui temos um único Deus (singular) relacionado simultaneamente a três pessoas distintas (plural). O mesmo princípio se aplica a Mateus 28.19. Portanto, o simples uso do singular não autoriza a conclusão de que se trata de uma única pessoa.

Além disso, Mateus 28.19 não diz “em nome de Jesus, o Pai e o Espírito Santo”, mas afirma explicitamente: “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. A enumeração tripla exclui o unicismo. No grego, a repetição do artigo τοῦ e o uso da conjunção καί atribuem a mesma função sintática ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, indicando três referentes pessoais distintos, e não meras manifestações de uma única pessoa.

Como observa A. T. Robertson:

“O ‘nome’ singular (ὄνομα) é significativo. Não significa uma pessoa, mas uma autoridade e uma essência, compartilhadas pelo Pai, o Filho e o Espírito Santo.”

Dessa forma, o argumento unicista baseado no uso do termo “nome” no singular é refutado à luz da construção gramatical do grego e não se sustenta nem linguisticamente nem biblicamente.

4. O fator histórico: a fórmula trinitária foi introduzida posteriormente e não consta nos originais?

Para reforçar sua argumentação, os unicistas recorrem novamente a Eusébio de Cesareia, alegando que, por ele não citar a fórmula completa em todas as ocasiões, ela não existiria nos manuscritos originais e teria sido introduzida no Concílio de Niceia (325 d.C.).

Esse argumento, porém, é facilmente refutado:

a) Eusébio viveu cerca de 200 anos após a morte de Cristo, quando os escritos do Novo Testamento já estavam amplamente difundidos e reconhecidos pela Igreja.
b) A omissão parcial de um versículo não prova inexistência textual; era prática comum citar apenas a parte relevante ao argumento.
c) Pais da Igreja anteriores a Eusébio citam explicitamente Mateus 28.19 em sua forma trinitária. Exemplos patrísticos incluem:

Didaquê (c. 90–110 d.C.)
“Batizai em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.” (Didaquê 7.1)

Justino Mártir (c. 150 d.C.)
(Primeira Apologia, cap. 61)

Irineu de Lyon (c. 180 d.C.)
(Contra as Heresias, III.17.1)

Tertuliano (c. 200 d.C.)
(Sobre o Batismo, cap. 13)

d) Todos os manuscritos que contêm Mateus 28 apresentam a fórmula trinitária, sem qualquer variante que a omita.

Conclusão

A doutrina da Trindade está claramente evidenciada na ordenança de Jesus a respeito do batismo e constitui uma verdade fundamental da fé cristã. Não crer no Deus trino, mas em uma divindade sem respaldo na revelação das Escrituras, caracteriza idolatria. Há um só Deus, e esse Deus é trino: Pai, Filho e Espírito Santo.

Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Amém!